Contos do Ponte: O menino e a borboleta

O menino e a borboleta


Parque Municipal. Manhã de domingo.

O vendedor ambulante observa a cena. A mãe, o filho e uma pequena borboleta.

- Deixa a borboleta aí, Moisés.

O menino, que amparava a borboleta na ponta do dedo e observava atentamente suas cores e formas, desviou o olhar para a mãe, que sorria. Olhou novamente para a borboleta por alguns instantes e num gesto fez com que ela ganhasse o céu. Voltou para perto da mãe, olhar tristonho. Mãos dadas e os dois foram embora.


* * *

A avó observa a cena. A mãe, o filho e uma pequena borboleta.

- Deixe a borboletinha aí, meu filho. Vem com a mamãe.

O menino, que amparava a borboleta na ponta do dedo e observava atentamente suas cores e formas, faz um gesto lançando a borboleta ao ar, e corre para o colo da mãe. Os dois vão embora.


* * *

Um transeunte observa a cena. A mãe, o filho e uma pequena borboleta.

- Vem, menino.

O menino descarta a borboleta e vai embora com a mãe.


* * *

A criança e a borboleta.

O olhar atento de Moisés captura cada detalhe da constituição da borboleta. Não lhe escapam as tonalidades, as formas. Não lhe passam despercebidas a suavidade das asas, a fragilidade do corpúsculo.

O pequenino ampara a borboleta com a ponta de um dos dedos, enquanto observa. O lepidóptero exibe suas formas em poses magistrais para deleite do menino.

Uma voz doce e suave:

- Deves deixá-la partir, Moisés. Oferece-lhe a liberdade.

O menino volta seu olhar para a mãe, buscando aprovação para sua relutância em permitir o voo da borboleta, mas não a encontra. Olha novamente para a pequena vida em sua mão.

- Como posso deixar-te partir? Como posso desistir de ti? Tu me cativaste!

A borboleta permanece em óbvio silêncio.

- Tu não podes me deixar. É imperioso que tu permaneças comigo, a fim de prover sentido a existência deste ser que te devota cada átomo de si. Tu não podes partir, porque tu me cativaste!

O silêncio da borboleta, ainda que óbvio, lançava a alma do pequeno Moisés num turbilhão de sensações indecifráveis.

- És tesouro de incalculável valor, por tua existência milagrosa. O toque de teu olhar abençoa minha alma, e tu agora tencionas me deixar. Tu, que me cativaste, desejas agora ferir meu espírito, comprometer minha existência imortal ofertando-me a maldição de tua ausência...

A voz novamente se manifesta:

- Ofereces tu, Moisés, a bênção da liberdade. Deixas que ela se vá.

- Mas fui cativado!

- Tu serás cativado inúmeras vezes durante tua vida. E tu serás deixado outras tantas. Terás vida longa e feliz, mas terás tua alma tocada pelo mundo, e compartilharás com ele tua alegria e tua dor. Viverás passagens de proporções bíblicas para outras em que tua vida não será mais que uma tarde de calor ameno. Inúmeras vezes tu vislumbrarás a liberdade, para outras tantas em que tu deverás ofertá-la.

Moisés observou novamente a borboleta. E num gesto, deixou-a partir.

Por segundos de duração abstrata, o olhar do menino acompanhou o voo da borboleta. Despediu-se entre lágrimas e sorrisos, ofereceu sua mão à mãe e deixou-se guiar pelos anos vindouros...

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Se eu soubesse fazer poesias...

Se eu soubesse fazer poesias...

Eu não sou poeta.
Não sei fazer frases de efeito,
Não tá em mim, não levo jeito,
Acho difícil rimar.

Eu não faço poesia.
Se eu tentei, deu errado,
Sempre o mesmo resultado,
Acho mais fácil parar.

Me surpreendo escrevendo.
Ai de mim se ainda insisto,
Não sei porque não desisto,
Acho burrice tentar.

E no fim usar palavras
Pra impedir a passagem,
Não deixar qualquer margem
Acho melhor não confessar.

Eu não sou poeta.
E pra falar a verdade
Não há qualquer novidade
Acho que não vou mais falar.

Eu não sou poeta.
Eu não sei fazer poesia.
Me surpreendo escrevendo.
É melhor mudar de assunto.

Frank Sinatra - Let me try again

As férias do Ponte estão acabando...

Salve, leitor amigo, tudo beleza?
 
Pois é... estão acabando as minhas férias. Volto ao batente já nesta semana, e vamos ver o que é que 2010 reserva. Estaremos de volta esta semana, certo?
Nesse meio tempo, pode acontecer de eu ter problemas com meu domínio. O acesso ao blog terá que ser pelo endereço direto, já que pretendo migrar meu domínio pra outro host, e isso vai me dar uns trinta dias de endereço fora do ar. Então, se der biziu no www.andrepontepreta.com, por favor tenha um pouquinho de paciência, e vá até o http://andrepontepreta.blogspot.com e a gente continua o bate papo. Em um mês, o domínio volta a funcionar corretamente, e fica tudo como dantes.

Quase tudo, né? Ao entrar no rio pela segunda vez, nem a gente é o que era, nem o rio...

Abração pra todos!