
Levanta, Jair...Alto. Muito alto.
Jair é um sujeito bastante grande, é praticamente impossível perder o Jair de vista. Seguramente, mais de dois metros e dez centímetros, não se encaixando embaixo da maioria dos pontos de ônibus da cidade. E forte, muito forte. Não seria complicado imaginar Jair derrubando um carro, complicado era colocar o Jair dentro de um.
Moreira cansou de ver o gigante subindo e descendo a avenida, marmita a tiracolo, capacete, a caminho da obra. Depois de bons anos empresariando lutadores medianos, a cada vez que via Jair passando, Moreira ouvia o tilintar do dinheiro que aquele cidadão tão grande poderia gerar em cima do ringue. Um dia, cercou Jair.
- Gosta de lutas?
- Não, senhor.
- Já se imaginou lutando boxe?
- Não, de jeito nenhum, eu sou de paz, moço.
- Boxe não é guerra, rapaz. É esporte. Futebol e boxe são esportes. Só que o boxe é com as mãos.
- Mas não tem bola, moço.
E foi se afastando, gentilmente.
Moreira tentou algumas abordagens do gênero, visitou a obra, pagou almoços. Só começou a abrir a guarda do Jair quando levou uma cesta básica.
- Isso é café pequeno, Jair.
- Que isso, seu Moreira. Isso aqui é muito, Deus lhe pague.
- Deus paga, Jair, mas tem muito mais de onde veio isso. É só lutar.
- Luto não, seu Moreira. Não tenho jeito pra isso.
- Tem, homem. Basta bater no outro como se estivesse batendo no seu patrão.
- Mas eu gosto do seu Barbosa! Homem bom!
- Não é isso, Jair, senta que vou te explicar, diz Moreira acalmando o gigante.
E fala. Fala muito. Muita conversa, pouco efeito. Jair não se imagina lutando.
Um dia, Moreira seguiu Jair. Viu o casebre, os meninos no quintal, a mulher no tanque. Chovia. Moreira gravou a imagem na mente.
No dia seguinte, na portaria da obra, estava lá. Jair chegou e deu de cara com o empresário.
- Você vai lutar, Jair.
- Ô, seu Moreira, eu não quero não.
- Quer. Só que não sabe que quer. Vi tua casa, homem. Vi tua família. Não quer um futuro melhor pra eles? Não quer cuidar bem daqueles que você ama? É o boxe, Jair, que vai te dar tudo que sua família merece. Já imaginou os meninos numa boa escola particular? A patroa lavando roupa na máquina, sem precisar surrar tudo naquele tanque de pedra?
Pela primeira vez, a palavra boxe despertou brilho nos olhos de Jair.
***
Alguns meses depois, Jair já era uma desgraça no caminho dos adversários. Ainda que lhe faltasse técnica apurada, pouca coisa era capaz de deter o homem, força bruta acumulada, um desejo ininterrupto de vencer. As bolsas subiam a cada luta, os meninos já tinham o que calçar, e a mulher já podia assistir a novela em seu novo televisor colorido. A mulher ficara emocionada ao ver gente de olhos verdes na televisão. Tudo tinha cor.
A cada luta do Jair, minutos de concentração. Moreira passava os instantes que precediam as lutas motivando seu lutador mais valioso.
- Hoje é pra quebrar tudo, Jair. Cada dente que voar da boca do sujeito, é um cômodo a mais que você faz na tua casa, homem. Ele não é mau, não. Nem você, mas você tem uma família pra cuidar. Vai lá e baixa o sarrafo.
E Jair subia ao ringue. Normalmente, descia andando, tranquilamente. Os adversários costumavam sair do ringue carregados, em mau estado.
***
Naquela luta, o que não faltava era motivação. Jair não via a hora de vencer logo, já que Moreira o havia dito que a vitória naquele instante poderia significar uma casa num bairro muito melhor. Jair, ignorando o fato de que suas vitórias já haviam produzido várias casas no patrimônio de seu empresário, apenas desejava uma casa com jardim grande. A mulher sempre dizia que um grande jardim era importante, secar as roupas com espaço, ter lugar pros meninos brincarem com mais liberdade... era nisso, e só nisso que Jair pensava.
Até que viu o adversário vindo pro ringue. Menor que ele, mais fraco que ele. Mas parou e beijou carinhosamente uma senhora na platéia. A mulher segurava um bebê. Jair quase conseguiu ler os lábios do homem ao dizer ao filho que venceria por ele.
A voz do Moreira trouxe Jair de volta a realidade, e poucos minutos depois de soar o gongo, o gigante já metralhava o adversário, que não duraria muito tempo. Mas o gigante viu a mulher, e teve a impressão de que ela chorava. Nem viu quando o soco o atingiu.
Nada pra mudar a história do mundo, ele sabia. Levantou-se antes do três. Foi mais sorte do que técnica. Se ele não tivesse se distraído, não teria levado o soco. Eram os gritos do Moreira, exigindo a demolição do adversário. Ele ouvia isso, ao mesmo tempo em que via o homem com um olho bastante inchado, sangue por vários orifícios, e ainda assim sorrindo pra mulher, dizendo "tudo bem".
No intervalo do primeiro para o segundo assalto, Jair levou bronca.
- Quer estragar tudo? Quer entregar pra esse mané?
- Né isso não, seu Moreira... ele parece que precisa. Eu já tenho tanto...
- CÊ FICOU DOIDO?
Nunca tinha visto Moreira gritar daquele jeito. Jair estava ainda mais surpreso do que quando levou o soco.
- Sabe o problema, Jair? É a tua mulher! Enquanto você fica aí prestando atenção na família do outro, porque eu te vi olhando pra eles desde o início, você esquece da tua mulher.
- Que isso, seu Moreira, eu só...
- Cala a boca, que eu tô falando! É isso, sim. Idiota! Pensa na família dos outros, então... mas e a tua? E os sonhos que tua mulher deixou de ter pra ter você, hein? Certamente ela tinha sonhos, e agora leva essa vida de merda com você. Ela não tem mais sonhos, Jair, nada dá certo pra ela e pros meninos. Tudo porque se afundou na vida com você, imbecil, não teve o menor bom senso! Agora vai lá, detona esse palhaço, e vê se conserta alguma coisa!
Jair não viu nem ouviu mais nada, depois de saber de tudo isso. Só olhou com fúria. Não se conhecia dessa forma. Achava que batia nos outros, e não nela.
Moreira já contabilizava o quanto aquele olhar de fúria poderia representar em agressividade. Achou finalmente o jeito de despertar o monstro dentro de Jair.
Jair caminhou para o adversário, pronto para acabar com aquilo tudo. Fechou os olhos, abriu a guarda. O homem do outro lado ficou na dúvida, mas não prestou atenção aos gritos desesperados do Moreira, quem deveria fazer isso era o Jair.
Jair nem viu o soco que o atingiu, e não estava acordado quando caiu. Não ouviu o dez.
***
Moreira sumiu, apostou tudo que tinha e perdeu. Apostou boa parte do que era do Jair, também.
Jair voltou a obra, sempre teria lugar pra trabalhar, segundo seu Barbosa. Os colegas jamais entenderam porque ele desistiu. Não saberiam jamais, ele nunca mais falou sobre aquele dia. Pra todo mundo, Jair teria perdido pro adversário. Ele sabia, no entanto: perdera pra si mesmo.